Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
Theo James Taylor é um escritor de ficção e narrative designer cujo trabalho funde o mito, a memória e o insólito. As suas histórias exploram frequentemente os espaços esquecidos entre a História e o folclore, focando-se em personagens emocionalmente densas que navegam por mundos estranhos ou transformadores. Quando não está a escrever, cria campanhas imersivas de RPG de mesa e escreve ficção seriada online. Vive na costa oeste do Canadá.
A Tecelã de Rostos baseia-se na cosmologia iorubá, particularmente na reverência pelos Orixás e pelos espíritos ancestrais, bem como na tradição da África Ocidental de colocar máscaras como uma arte sagrada e liminar.
A Tecelã de Rostos
A Criadora de Máscaras e a Criança
Muito antes do mar se ter remetido ao silêncio, cantava para Ayotunde.
Cantava enquanto mergulhava a madeira na água salgada e cinza de palmeira, quando a raspava com uma pedra nodosa até ficar lisa, quando sussurrava o Oriki de cada antepassado enquanto a faca separava o veio da respiração. As máscaras que entalhava não eram decorações — nunca decorações. Eram receptáculos. Rostos que os espíritos podiam usar quando desejavam ser vistos pelos mortais.
Esta noite, os seus dedos tremiam. Não pela idade. Pelo conhecimento.
À sua volta, a aldeia preparava-se para o Festival das Fozes dos Rios. As pequenas fogueiras tremeluziam como estrelas perdidas entre as casas de argila. As crianças ensaiavam danças, com os pés desajeitados pelo medo. Ninguém o dizia em voz alta, mas os traficantes de escravos estavam por perto. Perto demais. O fumo de uma aldeia vizinha erguera-se há dois dias e ainda pairava no ar como um aviso.
Ayotunde estava sentada à sombra da cabana, com a máscara inacabada a demorar-se no colo. Não era para um Orixá que conhecesse. Esta ostentava um centro vazio, rodeado por muitos olhos, cada um esculpido em madeiras diferentes. Um sorria. Um chorava. Um gritava. Os restantes esperavam.
— Não devias esculpir essa — disse uma voz atrás dela.
Ela não se voltou. — E, no entanto, esculpo.
Quem falava era o rapaz, Kola. Tinha nove ou dez anos, pés silenciosos e olhos de longas pestanas que viam mais do que deviam. Desde a incursão, ele vivia entre as sacerdotisas, comendo apenas o estritamente necessário e falando ainda menos. Mas Ayotunde já o tinha apanhado a observar. A observar a forma como os dedos dela passavam pela madeira. A observar como a lâmina se detinha quando o espírito se movia dentro do veio.
— Dizem que ouves as máscaras — disse ele.
— Não preciso de ouvidos. A madeira fala através das minhas mãos.
— Então, o que diz essa?
Ayotunde poisou a faca.
— Diz que os deuses estão cansados de ser conhecidos.
Kola não respondeu. Limitou-se a olhar para a máscara, com o próprio rosto a espelhar o vazio no centro dela. Demorou-se ali algum tempo antes de se retirar, sem dizer uma só palavra durante todo o tempo.
Nessa noite, o festival foi uma sombra do que costumava ser. Sem mascaradas. Sem o rufar dos tambores. Apenas oração, a luz das fogueiras e o arrepio do medo vestido de silêncio. Ainda assim, Ayotunde colocou as máscaras no exterior da cabana, como sempre fazia. O vento dançava entre elas, levantando as tranças adornadas com búzios, agitando as penas como se fossem asas.
Ela não dormiu.
Já estava acordada quando começaram os gritos. Os traficantes de escravos chegaram com tochas, cães e correntes que tinham o som de gargalhadas cruéis. Viu as sacerdotisas correr. Viu a casa dos anciãos arder. Ouviu o lamento dos tambores, tocados não em ritmo, mas em aviso. A sua cabana foi a última. Por esta altura, os seus olhos já se tinham cruzado com os de Kola.
— Sabes o que tens de fazer — disse ela. Ele assentiu uma vez.
Ela deu-lhe a máscara. Não as belas. Não os honrados Orixás de bochechas pintadas e lábios polidos. A que não tinha rosto. Ele aceitou-a sem questionar e desapareceu por entre as cortinas de junco.
Ayotunde estava sozinha quando eles chegaram. Não ergueu nenhuma lâmina. Não chorou. Quando exigiram saber para onde tinha ido o rapaz, ela levantou o queixo e disse: "Ele já se transformou em algo mais do que alguma vez poderiam levar em grilhões."
Então, bateram-lhe. E quando ela não caiu, voltaram a bater-lhe. As máscaras atrás dela baloiçavam à luz das chamas. Uma sorria. Uma chorava. Uma gritava.
Kola fugiu para a floresta com a máscara apertada contra o peito como um batimento cardíaco. Não se permitiu olhar para trás. As árvores acolheram-no, ou, pelo menos, não o repeliram. Deambulou durante três dias, sem nunca comer, sem nunca dormir. A máscara tornava-se mais pesada a cada noite, embora nunca mudasse de forma. Na quarta manhã, ele ergueu-a e pô-la no rosto.
E o vento aquietou-se. Uma cigarra cantou. Depois outra. E, por fim… uma voz. Não era a voz dele. Sussurrou-lhe ao ouvido: «Caminha comigo.»
Assim fez. Caminhou com a máscara até os seus pés já não se lembrarem da sensação da terra. Falou em línguas que nunca aprendera. Chorou com vozes que nunca ouvira. Esqueceu o seu nome.
Mas a floresta lembrou-se.
Os traficantes de escravos procuraram-no, pois claro. Enviaram cães e caçadores, e atearam fogo ao matagal. Não encontraram nada. Apenas histórias.
Um batedor regressou a balbuciar sobre uma criança com os olhos de cem rostos. Outro afirmou ter visto o rapaz hirto como uma árvore, para logo a seguir se esfumar assim que a luz mudava. Em breve, as ruínas da aldeia foram abandonadas, entregues ao apodrecimento de silêncios infindáveis. Mas a lenda não esmoreceu. Em vez disso, cresceu. Nas aldeias vizinhas, as mães diziam aos filhos para não mentirem, para que o rapaz das vozes emprestadas não os ouvisse. Os mercadores juravam ouvir gargalhadas no bosque quando passavam demasiado perto dos trilhos antigos. O cavalo de um rei espantou-se ao ver uma máscara pendurada num ramo… vazia, sorridente, a observar.
Deram à figura um nome… Òjì Ayé. O Rosto que Deambula pelo Mundo. Alguns diziam que carregava a mágoa numa mão e a alegria na outra. Outros diziam que só aparecia antes do derramamento de sangue. Alguns juravam que não tinha corpo nenhum, apenas a memória de um. Mas a máscara permanecia. À espera.
O Colecionador e o Mito
Do diário de campo de Edmund Greaves, 1892
Sociedade Real de Etnologia, Expedição à África Ocidental
«Os habitantes locais chamam-lhe Òjì Ayé, o que se traduz aproximadamente como "O Rosto que Deambula pelo Mundo". Falam dele em tom baixos e contido, mesmo os convertidos. Uma figura de muitas vozes, todas emprestadas. Dizem que aparece antes da guerra, da fome ou do fogo. Não há consenso quanto à sua forma, mas a palavra "máscara" surge constantemente.»
«Recolhi quatro máscaras cerimoniais das ruínas a norte da Costa do Cabo, três das quais correspondem a Orixás conhecidos. A quarta é anómala, não está pintada, apresentando um centro vazio rodeado por entalhes rudimentares de olhos abertos. Curiosamente, é fabricada com múltiplas madeiras, nenhuma delas originária de uma só região. A sua idade é incerta, mas é claramente antiga.»
«Os aldeãos recusam-se a tocar-lhe.»
Greaves acreditava em duas coisas: classificação e controlo.
Não acreditava em fantasmas.
Passara anos a perseguir histórias por entre o mato e o calor, mapeando o caos da memória tribal em caixas ordenadas e notas de rodapé. Sabia como o mito distorcia o luto. Como as pessoas transformavam o medo em fábula e lenda. Mas esta perseguiu-o.
Os relatos mudavam de aldeia para aldeia. Numa, Òjì Ayé era um protector. Noutra, um ladrão de almas. Alguns descreviam-no como infantil, outros como alguém mais antigo do que o próprio tempo. Outros diziam que tomava a forma de um espelho. Sempre a máscara. Sempre a floresta além.
E, sempre, o aviso final: Não entres no bosque ao crepúsculo.
Claro que ele entrou.
Estava na sua terceira semana perto da antiga estrada comercial, nas ruínas do que outrora fora uma cidade costeira. O bosque situava-se atrás de um santuário desmoronado, engolido por raízes de figueira-de-bengala. Os seus guias recusaram-se a segui-lo.
Greaves levou o seu caderno e uma caneta de desenho. Trazia a máscara embrulhada num pano e entalada debaixo do braço. O sol pairava baixo, ardendo em tons de ouro e vermelho, com a cor a sangrar através da copa das árvores em linhas de âmbar. Os pássaros chilreavam. As folhas sussurravam baixinho.
Foi então que o viu. Uma figura. De forma humana. Imóvel como a casca de uma árvore. O rosto estava em branco. Mas não vago. Começou a mudar. Um clarão, depois outro. E lentamente emergiu um rosto. O rosto de um rapaz novo. Depois, uma mulher a chorar. Depois, um homem a rir. O semblante carrancudo de um guerreiro. Um grito sem fôlego. Um silêncio tão profundo que rugia. Tudo ao mesmo tempo. Por todo o lado.
A figura deu um passo em frente. Ele não conseguia mexer-se. Não por medo. Por reconhecimento. Os rostos eram os dele. Um por um. Mágoas que ele não permitira que viessem à superfície. Culpas que julgava há muito enterradas. A voz que se ergueu não era a sua. No entanto, ele compreendeu-a enquanto ela abalava o seu âmago, com os pulmões a tremerem com a vibração.
— Vieste para me nomear.
Greaves abriu a boca. Mudo, nenhum som saiu.
— Não podes — continuou a figura. A entidade levantou uma mão. Greaves viu as marcas. Raspas de ferramentas de entalhe. Calos que nunca cicatrizaram. Pontas dos dedos manchadas de seiva. E olhos… centenas deles, gravados na pele e na casca, algo entre o âmbar e o sangue a fluir por entre os sulcos.
Ele caiu de joelhos. Então, a máscara ergueu-se do chão. Pairou. Girou uma vez e desapareceu por entre as árvores.
A sua última entrada no diário dizia:
«Ele vê-me. Vê tudo.
O rosto muda. A voz… a minha?
Não. Não é minha. Já não. Um coro de memórias, de coisas que enterrei em silêncios. O rapaz de quem ridicularizei na praça. A mulher que sangrou sob a minha vigilância. As coisas que fiz em nome do conhecimento e da conquista. Elas falam agora e eu tenho de ouvir.
Senti-as a pressionar através da minha pele como o sopro através de papel húmido. A sua mágoa abre-me, descasca-me. Não é um monstro. É um espelho. Um espelho que recorda o que eu escolhi esquecer. O rosto… traz-me posto. Não consigo desviar o olhar.
Incompreensível, intangível e, no entanto… completa-me. Desfaz-me. Compreende o que eu sou e, ainda assim, fala.
Guia-me.»
Não há mais entradas no diário. Dias depois, quando os guias entraram o bosque, não havia sinal de Greaves. Apenas o seu caderno de esboços, aberto num desenho de uma máscara sem rosto.
As margens estavam húmidas. Manchadas de lágrimas.
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