Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
Zainab Salimi Vivo no Dubai, uma cidade sempre em rebuliço — e eu também. Adoro debater, pintar quando preciso de respirar e encontrar clareza algures entre um campo de netbol e uma página em branco. No entanto, regresso sempre ao meu caderno, com o meu amor pela história a refletir-se frequentemente na minha escrita. É o lugar tranquilo onde posso dar sentido às coisas. Ensinou-me que há poder em colocar a nossa voz no papel, mesmo quando ela treme.
Cinzas enre nós decorre em Berlim, em 1945, durante o colapso da Alemanha Nazi. Pouco antes da era do Muro de Berlim, à medida que o Exército Vermelho avançava e o Estado Nazi recrutava rapazes de apenas 16 e 17 anos, as famílias viviam aterradas, tanto pelas bombas que vinham de cima como pelas batidas à porta de oficiais de recrutamento ou de informadores. Quis explorar como as famílias comuns — não os soldados, não os líderes — carregaram o peso da guerra e da divisão.
por Zainab Salimi, traduzido por Filipa Oliveira
A minha mãe costumava dizer que o luto nem sempre vem com uma forte batida na porta. Às vezes entra de mansinho, reorganiza a mobília e ensina-te a conviver com ele. Mal sabia ela que o luto pode vir de ambas as formas.
O fumo enchia o ar, como era costume, acre e pungente, colando-se à minha garganta. Eu ouvia o pulsar de Berlim — a quebrar-se, com a artilharia a latejar dia e noite, ruas pejadas de destroços, elétricos retorcidos e vultos de pessoas andando como fantasmas através da neblina. A vida estava má, mas eu e o
Hans ainda tentávamos viver de forma normal. Trocávamos biscoitos meio duros, ríamos de histórias parvas enquanto sussurrávamos debaixo dos cobertores, fingindo que as bombas lá fora eram apenas uma tempestade de verão. Ele era a minha âncora, a minha prova de que alguma parte da vida ainda podia ser nossa. Mas naquele dia tudo mudou.
O estrondo começou como um trovão contra a porta. Punhos, botas, coronhas de espingardas. Cada pancada sacudia as paredes, fazendo chocalhar as chávenas na prateleira.
— Aufmachen! — Abram a porta!
O rosto da minha mãe perdeu toda a cor. Agarrou o Hans pelos ombros, ordenando-lhe num sussurro sibilante que se fosse esconder no quarto.
A porta estoirou antes mesmo de ela conseguir soltar o ferrolho. Dois soldados invadiram a casa, as botas batendo com força contra as tábuas do chão, as espingardas já erguidas. Um deles gritou, com a saliva a saltar-lhe da boca:
— Onde está o rapaz? Sabemos que ele está aqui!
— Eu... eu não sei do que está a falar — gaguejou a minha mãe. — O meu filho não está em casa.
As suas palavras foram abafadas pelo estrondo de mobília virada, gavetas puxadas, armários escancarados. Depois, um deles abriu violentamente a porta do quarto. Hans.
— Aqui! — rugiu o soldado, puxando-o para a luz. O Hans resistiu, mas o punho do homem atingiu-o no estômago, dobrando-o ao meio.
— Amanhã. Posto de recrutamento. Se ele não aparecer — todos sofreram as consequências.
O Hans tinha apenas dezassete anos.
Depois disso, fomos apenas a minha mãe e eu durante semanas. Ela sentava-se à mesa pequena, passava o rouge nas maçãs do rosto como se as aparências pudessem impedir a guerra de nos tocar. — Senta-te direita, Maria — sussurrava ela, com o olhar penetrante. — Temos de estar calmas e apresentáveis. Eu obedecia, com as costas a doerem, mantendo a postura de uma rapariga que ainda acreditava que alguém viria para nos salvar.
Quando o Hans veio casa pela primeira vez, quase corri para o abraçar, mas a forma como ele estava parado à soleira da porta deteve-me. Os seus olhos não suavizaram, ele mal falou e, quando o fez, a sua voz era baixa e deliberada, como se cada palavra tivesse de passar por camadas de exaustão antes de chegar até mim. Já não se ria das minhas piadas canhestras, também já não partilhávamos biscoitos duros e, por fim, ele deixou de sorrir.
A segunda vez que veio, a farda dele cheirava a fumo e a algo amargo, metálico. Havia um rasgão na manga e tentei tocar-lhe, mas ele afastou-se, quase num sobressalto. Foi nessa altura que o Hans deixou de ser o meu irmão, passando a ser apenas um estranho que lhe roubara o rosto.
Depois disso, não nos visitou durante semanas, talvez meses. Tinha-me habituado ao espaço vazio que ele deixara, à forma como a sua ausência reorganizava o ar no nosso apartamento. Mas hoje ele decidiu visitar-nos; desta vez, entrou pela porta com uma tensão no maxilar que eu reconhecia de antes da guerra, o tipo de determinação que significava que algo ia acontecer, quer quiséssemos, quer não.
— Há um comboio — sussurrou ele — daqui a duas noites. Alguns civis. Se estivermos nele, estaremos atrás das linhas americanas antes de os soviéticos chegarem à cidade.
A minha mãe hesitou, mas a voz do Hans era firme, urgente. — Tenho um amigo que trabalha na estação e que me deve um favor. Tenho lugares para todos nós. Lentamente, a minha mãe assentiu.
A noite chegou, negra e gélida. Movíamo-nos por ruas pejadas de escombros, em silêncio, salvo pelo som da nossa própria respiração. Cada sombra parecia transformar-se num soldado, cada lampejo de movimento numa potencial ameaça. Os Aliados tinham declarado Berlim como o seu troféu e os soviéticos estavam a apertar o cerco. Os refugiados afluíam à estação; ninguém sabia quais os comboios que conseguiriam realmente passar os postos de controlo. Mas seguimos o Hans, porque não havia mais nada a seguir.
Dentro da estação, o ar estava denso de fuligem e pânico. Soldados gritavam ordens, empurrando homens que pareciam suficientemente jovens para lutar, inspecionando documentos com suspeição. O capote da farda do Hans ainda lhe servia de escudo, embora os seus olhos traíssem o fardo que carregava.
Então aconteceu.
Um soldado perto da plataforma estacou, com o olhar fixo no Hans. O reconhecimento brilhou no seu rosto — se era do serviço na Volkssturm ou de uma lista de desertores, nunca saberei. — Tu aí, para!
Por um momento suspenso, toda a estação pareceu suster a respiração. Depois, o Hans sibilou: — Corram!
Lançámo-nos para a frente. A minha mão agarrava-se à manga dele, com a minha mãe a tropeçar ao nosso lado. Irromperam gritos. Apitos soaram. Botas martelavam contra a pedra enquanto os soldados nos perseguiam. Passámos por cima de caixotes, tropeçámos em malas, colidimos com estranhos cujas pragas se afogavam no caos. As minhas pernas ardiam; o meu peito era puro fogo, mas continuávamos a correr. À frente, o comboio rangeu, com as portas a fecharem-se com estrondo. Refugiados trepavam pelos degraus, braços estendidos, desesperados por serem puxados para dentro. Atirámo-nos para a frente, a minha mãe primeiro, depois eu, com os meus dedos a agarrarem-se ao varão de ferro frio. Por um instante, estávamos juntos — quase livres.
Mas o Hans não subiu.
Uma mão agarrou-lhe o ombro como se fosse de ferro. Ele olhou para mim, com a respiração arquejante e os olhos subitamente límpidos. — Vai — disse ele suavemente, como se fôssemos crianças outra vez, a esconder-nos das reprimendas da nossa mãe no vão das escadas.
— NÃO! — berrei eu, esticando-me, unhando o ar, soluçando. — Hans, por favor! Por favor, vem!
Mas ele apenas sorriu com um ar de libertação. — Eu sabia que não ia conseguir — sussurrou ele.
O soldado puxou-o para trás com força. Eu tentei saltar, mas a minha mãe agarrou-me, arrastando-me para dentro enquanto o comboio arrancava com um solavanco. Os meus gritos rasgaram o ar, o fumo e as paredes de ferro daquela estação maldita, até a minha garganta estar em carne viva e o meu corpo se sentir vazio.
A última coisa que vi foi o meu Hans, reclamado por Berlim para sempre.
Did you love this story as much as we did? Why not share it with someone else to show your support for the author! We're @WHEncyclopedia on social media using the hashtag #InkOfAges 📜🪶
We're determined not to charge writers entry fees.
Open to entries in English from anywhere in the world.
A dedicated team of WHE staff, submission readers, judges, and translators.
Stay informed about submission deadlines, winners announcements, writing tips, and general feedback from the judges.
My favourite editing tips. Writing and editing advice benefits from two disclaimers, I think: Do whatever you want as long as it works. And choose to ignore advice that doesn't inspire you, Let's go!