Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
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Meu nome é Teniola Balogun, moro em Lagos, na Nigéria. Gosto muito de ler e dançar. Também sou MUITO fã de Afrobeats. Adoro passar o tempo com a minha família e os meus amigos.
Ọmọ Ayé Méjì: Criança de Dois Mundos foi inspirado na colonização britânica da Nigéria.
por Teniola Balogun, traduzido por Letícia Amboni
Eni tí ó dákẹ́, o ti gbà. Quem cala, consente. Mas o medo a impediu de falar.
Era 1943, em Lagos, Nigéria. A laguna cheirava a querosene e sal, a água agitada pelos zumbidos das canhoneiras britânicas espalhadas pelo cais.
Bandeiras do Reino Unido estavam estendidas ao lado de construções embranquecidas, com os seus donos, os soldados britânicos, observando as ruas com cautela e violência.
Hoje eles estavam sedentos de sangue. A tia Hafiyat, a vendedora de amendoim, sibilou quando um soldado tentou pegar um pacote que ela tinha colocado cuidadosamente na bandeja em cima da sua cabeça. Ela foi arrastada pelo hijab e espancada até perder os sentidos.
“O ti to, E jor!”, gritavam os transeuntes enquanto o soldado a chutava sem parar.
A tia Hafiyat ficou caída no chão, a sua linda burca coberta de lama.
Eu tinha doze anos quando presenciei esta cena voltando da escola. Eu me acovardei atrás do malam que vendia pão. Nós nos encolhíamos toda vez que ela era chutada.
“Eni tí ó dákẹ́, o ti gbà. Quem cala, consente.”
A frase ecoava em meus ouvidos, repetida no tom de advertência da minha Iya Agba. Mas o medo me impediu de falar.
Desejei conseguir correr para ajudá-la, gritar, bater nos soldados, fazer qualquer coisa, algo que impedisse aquela cena horrível de continuar. Me apressei a volta para casa, com medo de que eu pudesse ser a próxima vítima se os soldados me vissem.
Veja bem, Lagos nem sempre foi assim. Nós não andávamos sempre temorosos nas ruas, nem nos escondíamos nos cantos no momento em que avistássemos as bermudas cáqui.
Nós éramos livres. Dançávamos loucamente ao ritmo incessante de tambores falantes e xequerês durante as noites, nossos pés levantando poeira no ar.
Assávamos milho e amendoim à beira da estrada enquanto ríamos sob lâmpadas a gás.
Mas os britânicos tomaram tudo isso de nós.
Tomaram nossas terras, as marcando com fronteiras que não desenhamos.
Reescreveram nossas histórias em livros que não conseguíamos ler.
Construíram igrejas onde antes havia santuários e chamaram isso de salvação.
O que antes era nosso por direito de nascença passou a ser deles com tinta, por arrogância.
Eu não tinha a intenção de passar pela rua Balogun naquele dia.
Minha Iya Agba mandou me comprar feijão. “Kò le rara”, ela gritou enquanto eu saía pela porta. “Não é nada difícil.”
Iya sempre foi muita específica quanto aos ingredientes que usava para cozinhar. “Ẹyọ̀ ńlá tó gbóná”, ela avisava, pois as malaguetas mais ardidas eram melhores para akaras quentinhos, de dar água na boca.
Nós sempre nos conectávamos através da comida. Passávamos noites em banquinhos na cozinha, o rosto da Iya Agba iluminado pelas chamas azuis e amarelas do cilindro de gás na varanda, conversando sobre a época antes da colonização, sobre como seria depois.
Estava perdida na doçura de velhas memórias, reproduzindo a voz da Iya Agba em minha cabeça, quando percebi tarde demais que peguei o caminho errado.
Tropecei nas estradas rachadas que sinalavam minha chegada na rua Balogun.
O cheiro distinto de puff-puff doces sendo fritos preencheu o ar. As crianças pequenas corriam ao redor dos quiosques das suas mães, a alegria evidente em seus sorrisos espontâneos. Eu parei, encostei meu ombro em um quiosque próximo e sorri. Apesar do mau estado da infraestrutura, o Mercado Balogun era lindo.
Foi então que eu o vi.
Ele estava encostado em uma parede rachada, os braços cruzados, observando o mundo com um tipo de divertimento discreto. A camisa estava desbotada, mas limpa, e os olhos, aqueles olhos, continham algo que eu ainda não conseguia nomear. Não era fascínio, não era malícia. Era algo mais estável. Algo que me fez esquecer, por um momento, que eu estava perdida.
Ele notou que eu olhava para ele. E sorriu.
Aquele sorriso foi o começo.
Obviamente, eu não sabia que aquilo levaria a caminhadas nos domingos e puff-puff compartilhados, nem a histórias de infância contadas embaixo do pé da manga atrás da loja da Mama Titi. Era estranha, quase risível agora, a facilidade com que baixei a guarda.
Porque ele era um soldado.
Não um soldado qualquer. Ele vestia o mesmo uniforme que os homens que arrastavam as nossas mães pelas túnicas e espancavam os nossos pais por falarem muito alto. Ele fazia parte daqueles que tomaram a nossa Lagos, a encheram de bandeiras e disseram que lhes pertencia.
Eu devia tê-lo odiado, mas o amor não pede permissão.
Henry. Esse era o nome dele. Alto, ombros largos, branco. O tipo de homem que andava como se fosse o dono da terra que pisava. O toque dele era firme, a voz era baixa, e eu confundi perigo com desejo.
“Teni, nibo lo n lọ ní gbogbo domingo yi?”, Iya me questionava. “Aonde vai todos os domingo?”
Eu mentia. “Comprar sabonete no mercado”. “Visitar Adanna”.
Menti até que a verdade cresceu dentro de mim, chutando.
Iya Agba sabia antes que eu dissesse qualquer coisa.
Ela me observou por semanas, observou a forma como eu me movia mais devagar, a forma como minha túnica não me servia mais, a forma como eu evitava os olhos dela como se fossem fogo.
Naquela manhã, ela não gritou. Ela não perguntou. Ela só ficou parada perto da janela, descascando feijão em um silêncio que parecia trovão.
“Ṣé ọmọ ni?”, ela disse, enfim.
É uma criança?
Congelei. As palavras ficaram suspensas no ar como fumaça. Assenti.
Ela não chorou. Ela não xingou. Ela simplesmente largou a tigela e saiu do cômodo. O silêncio dela doeu mais que um tapa.
Mais tarde naquele dia, fui ter com o Henry.
Ele estava sentado atrás da caserna, fumando, descalço, a camisa desarrumada. Contei tudo a ele, a menstruação atrasada, o teste, o medo. Ele nem piscou.
“Não é meu”, ele disse, os olhos frios, a voz sem emoção.
Eu ri. Não por ser engraçado, mas por ser cruel.
“Acha que eu carregaria a vergonha de um soldado por diversão?”.
Ele se levantou e passou por mim como se eu não fosse nada.
Observei ele indo embora e, naquele momento, compreendi algo mais intenso que um coração partido.
Eu estava cultivando uma semente britânica em solo nigeriano.
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