Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
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Jing Zomok é uma estudante canadiana apaixonada por história, narrativa e direito. O professor de Inglês (que acreditava no poder das histórias) inspirou-a a explorar a literatura indígena; e os temas da memória e da identidade. Quando não está a escrever, gosta de ler ficção histórica, estudar línguas e fazer tricô.
Um Sussurro Pode Durar Mais que a Pedra é inspirado na história da Lei Indígena no Canadá e no seu impacto nas comunidades Ojibwe. Explorou a memória cultural, a tradição oral e a resistência silenciosa que permitiu que a cultura indígena sobrevivesse. Embora seja uma ficção, esta história baseia-se nas políticas históricas de assimilação dos povos indígenas do Canadá, incluindo a proibição de práticas sagradas, de cerimónias e o sistema de escolas residenciais.
por Jing Zomok, traduzido por Filipa Oliveira
Tudo começou com tratados, demasiados e demasiado rápidos — uma tempestade de letras que não reconhecíamos. Escutámos e assinámos, acreditando que eles também escutariam. Pouco depois, disseram-nos que tínhamos de enviar os nossos filhos para longe. Depois veio o padre. Ele permanecia no nosso acampamento como um convidado que já tivesse decidido que era o dono do lugar. Tinha as mãos cruzadas piamente, mas os seus olhos eram duros, escrutinadores. Anunciou orgulhosamente uma nova lei. A Lei Indígena. Ele dizia-o como se fosse uma escritura e, para ele, talvez o fosse; mas para nós, era a declaração de uma guerra que já tínhamos perdido.
Chamo-me Memengwaa, do clã Makwa Doodem. Tinha quinze anos quando o meu irmão mais novo, Niigaanii, foi levado para a escola em Fort Frances. Ele tinha apenas oito anos e dormia com um caçador de sonhos atado ao pulso por uma tira de pele de veado. Deixámos de falar a nossa língua à frente de estranhos, mas era temporário.
— Eles não conseguem levar as raízes — lembrou-me o meu pai. — Não com palavras. — Mas até as árvores caem quando a casca é arrancada. Nessa noite, um picanço-real aterrou perto da nossa cabana. A minha avó sussurrou, com os olhos a seguirem as suas asas negras como tinta: — As aves guiam-nos, não importa o tempo.
Deixámos uma oferenda junto ao cedro nessa noite e dissemos: — Miigwech. — Obrigado.
***
Quando o Niigaanii regressou no verão, os seus olhos já não brilhavam e o cabelo tinha sido cortado rente ao couro cabeludo, levando consigo todas as suas memórias. As suas roupas eram hirtas e apertadas. — Diz o teu nome — implorei suavemente. — O teu verdadeiro nome.
Ele olhou para o chão. — Peter — murmurou.
— Não — respondi eu. — Não é esse o nome de que os espíritos se lembram.
Nessa noite, encontrei o seu makak, a sua caixa de casca de bétula. O que outrora guardara contas de tambor e esculturas de animais, continha agora um catecismo. Coloquei-a ao lado da minha, junto à chaleira de cobre da nossa avó e à bolsa de tabaco que usávamos para as oferendas. Foi devolvida ao seu lugar de direito, rodeada de amor. Depois, inclinei-me para a frente, em direção ao brilho do fogo — cujos estalidos soavam como uma canção antiga — e sussurrei: — Niigaanii. — Eles não podiam proibir o fôlego.
No ano seguinte, baniram as nossas danças e cerimónias. O padre disse-nos que eram atos pagãos. — Crimes — resumiu ele com simplicidade, com um sorriso fácil, como se estivéssemos todos de acordo.
Mas a minha tia, que cuidava da cabana, disse o contrário: — Os espíritos não precisam de ruído para ouvir; o sagrado pode viver no silêncio.
Ela ensinou-me as canções antigas. Os ensinamentos do urso, os sete fogos e a Avó Lua. Todas as noites, eu sussurrava-os para mim mesma até que passassem a viver sob a minha língua. Quando ela morreu nesse inverno, atei uma bolsa de cedro e erva-doce ao ramo mais alto do seu ácer. O padre não viu nada; certas coisas não foram feitas para os seus olhos.
Depois, destituíram a nossa liderança. Os Agentes Indígenas disseram que somente podiam ser chefes os homens aprovados pela Coroa.
— Eles querem que sejamos liderados por estranhos — avisou o meu pai, com os olhos fixos nos meus. — Mas a memória será sempre mais forte do que a lei.
Fizemos o que tinha de ser feito: lembrámo-nos com os pés, percorrendo as rotas de caça traçadas pelos nossos avós. Lembrámo-nos com as mãos, acondicionando arroz selvagem em cestos que já não nos era permitido vender sem licenças. Lembrámo-nos nos sonhos, onde os espíritos continuavam a vir sem pedir licença.
Certa noite, no coração da floresta, vi os memegwesiwag — o Pequeno Povo — figuras minúsculas a passarem velozes por entre os fetos, circulando um velho ácer. Quando pestanejei, desapareceram. Mas, na manhã seguinte, havia um rebento no lugar de um tronco queimado. A minha tia disse uma vez: — Onde eles dançam, a cura começa.
Na primavera do meu décimo oitavo ano, o padre regressou com um soldado, ambos com um olhar triunfante. Alguém tinha denunciado uma reunião. Perguntaram sobre a cabana Midewiwin e acusaram- nos de ritos pagãos.
— Não há aqui nenhuma cabana — disse eu, olhando-os nos olhos.
Mesmo assim, revistaram tudo. Escancararam os nossos fardos de medicina com paus, viraram canoas e destruíram fogueiras. Encontraram os rolos de casca de bétula com cânticos e ensinamentos.
— Selvagem — rosnou o soldado.
— Prova — disse o padre.
— Sagrado — sussurrei eu.
O soldado acendeu uma fogueira e os rolos foram atirados lá para dentro; a raiva respirava através do fogo, subindo em estalidos agudos e amargos. Desviei o olhar do fumo, mas não antes de ver o Niigaanii. Ele contará-lhes.
Encontrei-o nessa noite, junto ao lago, com os joelhos encolhidos contra o peito.
— Eu não queria — disse ele, sufocado. — Eles disseram que os espíritos eram demónios. Disseram que tu ias arder.
— Não tens de acreditar nas histórias deles — disse eu. — Podes lembrar-te das nossas.
— Não consigo — sussurrou ele. — Já esqueci demasiado.
— Então escuta...
Cantei a canção de embalar que a nossa avó costumava cantarolar enquanto trançava a erva-doce americana. Sobre a Mulher do Céu que caiu, a tartaruga que ofereceu o seu dorso, o fogo que se lembrava.
— Desculpa — sussurrou ele.
— Eu também — confessei. — Mas ainda não estamos perdidos.
Nesse verão, fizemos um novo rolo. Não com bétula. As bétulas perto do acampamento ainda não tinham recuperado do incêndio. Em vez disso, arranquei a casca de um ácer caído. O Niigaanii entalhou-a, com o furador de osso do nosso avô: um urso, uma cabana, uma chama e uma rapariga a plantar uma semente. Por baixo, ele gravou os nossos nomes, aqueles que os espíritos ainda conheceriam. Selámo-lo com resina de pinheiro e enterrámo-lo sob o velho pinheiro-branco, onde a nossa avó costumava cantar.
***
Agora estou mais velha, o meu cabelo está grisalho. Sento-me junto ao fogo, a tecer cestos que já ninguém regula. As minhas filhas dançam vestindo saias de fitas, enquanto os meus netos se riem em Ojibwe, sem medo.
Uma noite, eles instalam-se à minha volta, perguntaram-me porque razão enterrei a casca em vez de a queimar; porque é que ainda guardo o makak de Niigaanii junto ao fogo; e porque é que canto quando estou sozinha.
Eu respondi-lhes: — Porque quando alguém nos tenta apagar, nós regravamos. E mesmo quando as vozes gritam como o trovão, um sussurro pode durar mais que a pedra.
Eles escutam em silêncio, com os olhos muito abertos. Depois, repetiram em coro: — Miigwech.
*
Makwa Doodem – Clã do Urso em Ojibwe; um dos clãs familiares com os seus próprios ensinamentos e
responsabilidades.
Midewiwin – A Grande Sociedade de Medicina dos Ojibwe, centrada numa cabana de medicina sagrada
onde são partilhados os ensinamentos e as cerimónias de cura espiritual com a comunidade.
Miigwech – Obrigado / Obrigada.
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