Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
Historical & Mythological Short Fiction
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Sophia Campbell é uma aluna do ensino médio extremamente apaixonada pela escrita. Ela já publicou três romances e recebeu diversos prêmios por seu trabalho, incluindo o Scholastic Silver Key. Além disso, pratica balé a nível profissional e já se apresentou em várias produções no Kennedy Center.
“Esquecer” foi inspirado nas escolas residenciais para indígenas americanos.
Eu tinha doze anos quando meu próprio eu foi tomado de mim.
A separação foi precedida por murmúrios de palavras estranhas à minha língua lakota, sílabas que eu não conseguia identificar, mas reconhecia como algo sinistro: Assimilação. Residencial. Mahkah e eu nos segurávamos com força naqueles últimos dias, aguardando a mudança que sentíamos cada vez mais próxima das planícies do norte do nosso lar. Quando os homens brancos uniformizados chegaram à nossa tribo exigindo as crianças, fomos arrancadas das mãos de nossa iná e nosso até.
Não!, Mahkah gritava enquanto era arrastada por eles. Não me levem!
Fomos enfiadas como mercadorias em carruagens puxadas por cavalos, destinadas a um lugar a dezenas de vidas de distância. A viagem foi um borrão nauseante de rios sinuosos e pradarias extensas. No fim, nós, a dupla de irmãs, fomos levadas para a frente de uma grande escola. A compreensão de que eu não veria meu lar por muito, muito tempo me dominou, assim como a ansiedade dominou meu coração.
Do meu lado, Mahkah estremeceu. Nossas mãos continuaram entrelaçadas enquanto nos arrastávamos pelo caminho, o internato pairando logo à frente. Ao longe, bem mais adiante, crianças cuidavam dos campos. Elas tinham o nosso cabelo liso e escuro e a nossa pele morena, mas com uma grande diferença. Seus rostos pareciam abatidos e cansados, envelhecidos pelo desgosto de algo que eu ainda não conseguia decifrar.
Vou fugir, Mahkah sussurrou para mim, ofegante.
Não, adverti. Não sabemos o que eles vão fazer.
Após chegarmos, fomos fisicamente transformadas. Primeiro foi o nosso cabelo. Quando Mahkah viu a tesoura, começou a chorar. Eu também queria protestar, mas o olhar de advertência de uma freira silenciou a minha língua petulante. As mulheres no comando — tínhamos que chamá-las de “irmãs” — não perderam tempo. Nosso cabelo, que ia até a cintura, foi cortado logo abaixo do queixo.
Aquele foi o primeiro fragmento que perdi do meu eu. Nos próximos meses, pedaço por pedaço, eu perderia tudo.
* * *
Na escola, nos ensinaram a esquecer. Devíamos esquecer nossos costumes, nossas tradições, nossa tribo, nossa língua nativa. Cuidávamos das plantações e dos animais, esfregávamos o piso até as nossas mãos ficarem em carne viva, políamos os vidros das janelas até brilharem. Dia após dia, devíamos esquecer nossas vidas antigas e dedicar nossa energia à escola.
Mahkah não se adaptou com facilidade, ela usava palavras em lakota com frequência e se recusava a fazer as tarefas. As freiras nunca hesitavam em a espancar após o menor dos erros, sem dó alguma diante aos gritos de agonia. Com o passar do tempo e depois tantos castigos violentos, senti a chama de Mahkah vacilar e a tenacidade de seu espírito enfraquecer.
Um dia, nos campos, Mahkah foi picada por um inseto e ficou com uma intensa irritação avermelhada na pele do braço. O desconforto inicial evoluiu para uma tontura intolerável e dores de cabeça lancinantes. Implorei às freiras para a ajudarem, mas ninguém se importou com o sofrimento de Mahkah. Ela precisava de ajuda imediata, e eu não podia mais esperar.
Naquela noite, enquanto tinha dificuldade para dormir confortavelmente sobre o estrado duro, decidi que não conseguia mais aguentar tudo aquilo. As freiras tinham esquecido de trancar uma das janelas do dormitório. Eu podia sentir a brisa gentil da noite arrepiando os pelos dos meus braços, me atraindo para a liberdade. Não teria de esquecer mais nada se conseguisse sair de lá. E, mais importante, que eu poderia conseguir ajuda para Mahkah.
Olhei para minha irmã, que dormia na cama ao lado.
Isso não é um adeus, sussurrei. Vou voltar por você.
Em silêncio, fui nas pontas do pé até à janela. Atenta a cada ruído inesperado, me joguei por cima do parapeito. Meu corpo bateu no pátio de madeira e, naquele instante, saí correndo sem olhar para trás. Corri pela vasta plantação de cevada. Corri para a floresta, tropeçando em raízes invisíveis. Corri ao longo de riachos e córregos. Corri, e não parei.
Percebi, no auge da fuga, que a escola não tirou tudo de mim, pois eu não tinha esquecido como correr.
* * *
Já fazia muito tempo desde que senti a fúria do calor do Arizona pela última vez. Os hematomas já haviam sumido do meu exterior e meu cabelo cresceu até passar da cintura de novo. Depois de fugir, passei muitas semanas sozinha na floresta, sem nenhuma ideia de onde eu estava. Sobreviver não foi difícil, eu sabia quais frutinhas eram seguras e quais raízes eram comestíveis. Mas eu não podia continuar daquele jeito para sempre e, finalmente, encontrei o povo Arapaho. O líder deles, em um ato de gentileza que possivelmente salvou minha vida, me levou de cavalo de volta para as Grandes Planícies, onde meu povo morava nas Colinas Negras. Após o reencontro com minha iná e meu até, não me restou escolha além de dar a eles a péssima notícia. Fazia quase dois meses que escapei e, naquele momento, eu já sabia que era tarde demais para salvar Mahkah.
Agora, duas décadas se passaram desde aqueles dias. Levei esse mesmo tempo para criar coragem de voltar à escola. E, quando fiz isso, não foi sem um objetivo.
Ao chegar, passei com pressa pelo prédio da escola e vaguei pelos pastos. Meu coração disparou quando vi aquilo. No canto mais distante da propriedade havia um pequeno amontoado de lápides rachadas se projetando do solo. Meus olhos passaram pelas gravuras de Mary, John e Bridget, até enfim pousarem em uma pedra específica. Entalhado às pressas na superfície estava o nome inglês que eles deram para Mahkah. Ela — e muitos outros — morreram por causa da negligência das freiras. E, mesmo depois da morte, foram rotulados com uma identidade que não era a deles.
Tentaram nos forçar a esquecer de nós mesmos, dos nossos nomes, dos nossos lares — e, talvez em mil anos, o mundo nos esqueça completamente. Mas eu era lakota. Não esqueci de mim mesma e nada, nem ninguém, conseguiria fazer eu esquecer a minha irmã.
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