Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
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Criada na Escócia e atualmente morando em Manchester, Abaan passou os últimos três anos trabalhando como professora de história após concluir seu M.Phil em Assiriologia, em Cambridge. Ela se interessa pelo que as histórias culturais podem revelar sobre a experiência humana e adora divulgar as excentricidades e os encantos da Mesopotâmia para cada vez mais pessoas (e cozinhar, ela também gosta muito de comer e cozinhar). Quando não está tentando convencer todo mundo ao redor que a arte neoassíria é incrível, ela pode ser encontrada lendo, saindo para dar longas caminhadas, se humilhando na frente dos alunos e bebendo muito chá.
“O Dilúvio” foi inspirado na Epopeia de Gilgamesh (Tabuleta XI).
Se você fosse um falcão, com suas asas cheias de manchas bem fechadas enquanto mergulha nos redemoinhos lamacentos do rio Eufrates, talvez já teria passado voando pelos tijolos cozidos de Uruque. Com uma carpa firmemente presa entre as garras — e as asas batendo mais devagar, já que mesmo um alevino de carpa tem o dobro do seu tamanho —, você voaria por cima das muralhas com ameias, passando por homens cujas espadas de ferro reluzentes cortavam o ar, e pousaria nas folhas salpicadas das tamareiras. De lá, poderia observar os sacerdotes carecas e as sacerdotisas com cabelo longo de fora do zigurate central, o azul e o vermelho intensos dos pináculos se projetando para muito além de você. Poderia ouvir os cânticos; e os lamentos; e os resmungos; e os suspiros das pessoas lá embaixo, poderia sentir o cheiro do suor acre, do incenso inebriante e da poeira acobreada da terra. E, se procurasse, inclinando a cabeça e espiando através das folhas, com a carpa dando espasmos enquanto suas garras afundam na pele escamosa, talvez visse os cachos escuros do Rei Gilgamesh.
Como todos os bons reis, Gilgamesh era forte, belo e destemido; mas, como a maioria dos humanos, também era teimoso, egoísta e arrogante. Apesar dos habitantes de Uruque serem gratos pela habilidade de Gilgamesh em esfolar criminosos e empalar intrusos em estacas, eles não apreciavam que suas esposas fossem constantemente raptadas pelos servos do rei e desaparecessem no palácio. Então os deuses enviaram Enkidu, um homem-besta selvagem que vivia na floresta e falava com os animais, e Gilgamesh ficou tão encantado com a sua nova companhia que deixou de aterrorizar o povo de Uruque enquanto os dois partiam em várias aventuras em busca de glória e fama. Eles massacraram demônios, guerrearam com deusas e mataram criaturas ferozes feitas de estrelas e cinzas, mas essas são histórias para outra hora. Por enquanto, vamos contar o que aconteceu depois de Enkidu ter enfrentado um deus a mais do que deveria e morrido. E Gilgamesh, de coração partido, jurou escapar desse destino e desvendar os segredos daquele que não podia morrer: Utnapishtim.
Longe, em um pequeno afloramento rochoso à beira-mar, Utnapishtim, o Distante, observou um barco se aproximar. Aquilo era muito estranho, considerando que ele vivia no canto mais afastado do universo e, naturalmente, nunca recebia visitas. À medida que o barco chegava ainda mais perto, ele avistou um homem alto, com os braços musculosos e sujos, segurando no alto uma pele de leão. O rosto dele parecia cansado e abatido, mas Utnapishtim podia ver, refletindo os raios do sol, aros de puro ouro pendurados nas orelhas do visitante.
Logo o barco atracou, o casco raspando nas rochas e no cascalho enquanto o homem ia para a terra. Estufando o peito, ele gritou:
— Sou eu, Gilgamesh, o grande Rei de Uruque! O conquistador do universo, o querido dos deuses, o destruidor de cidades! Sou o dia radiante cujo esplendor abala o povo, sou a formidável chama que cobre a terra!
Utnapishtim piscou. Era muita coisa para assimilar.
— E como posso lhe ajudar? — perguntou ele, educado.
Gilgamesh o encarou. Aquela não era a resposta que ele costumava receber e, para falar a verdade, ele estava nervoso.
— Deveria se dirigir a mim de joelhos! — exigiu, balançando a espada bem em frente ao nariz de Utnapishtim, que rapidamente deu um passo para trás.
— Veja bem, estou velho — respondeu como se pedisse desculpa —, meus joelhos...
— Basta! — gritou Gilgamesh.
Utnapishtim reparou que a espada parecia ser segurada de forma estranhamente relaxada.
— Conte-me seu segredo! Como se tornou imortal? Como convenceu os deuses a lhe dar vida eterna?
— Temo que veio ao lugar errado — respondeu Utnapishtim com pressa. — Agora, seria ótimo se pudesse voltar para o seu barco e partir...
— Não — murmurou Gilgamesh.
Ele ergueu a cabeça e, de repente, Utnapishtim viu a angústia irradiando dos olhos do outro, sentiu a dor queimando pela própria pele, então piscou e Gilgamesh, o herói, estava à sua frente mais uma vez, com o rosto frio e impassivo, um costumeiro sorriso sarcástico estampado nos lábios.
Utnapishtim ficou parado. Ele ergueu um dedo enrugado e enfiou na orelha, mexendo vigorosamente por alguns segundos antes de tirar uma pelota nojenta de cera e a jogar com destreza por cima do ombro. Mas os olhos dele nunca se desviaram dos de Gilgamesh.
— Tudo bem — disse ele, devagar. — Vou lhe contar. Mas sente-se. É provável que fiquemos aqui por um bom tempo.
Abaixando-se, Gilgamesh colocou a espada sobre os joelhos. A luz das chamas oscilavam e dançavam pelo rosto do velho homem, e Gilgamesh observava inquieto as rugas que se aprofundavam como grandes fissuras espalhadas na pele desgastada. Quando Utnapishtim abriu a boca, Gilgamesh vislumbrou dentes quebrados, uma abertura de ébano polido com pequenos pontos de luz, e então a história começou.
*****
Eu era jovem quando os deuses decidiram enviar o Dilúvio. A cada 1.200 anos, Enlil, o deus do ar e da terra, tentava se livrar dos humanos. Eles o irritavam; se reproduziam com muita facilidade e cresciam demais, o barulho que faziam mantinha Enlil acordado durante a noite, como um enxame de mosquitos zumbindo em seu ouvido. Então, em uma tentativa de resolver esse problema de uma vez por todas, ele enviou uma grande praga para a terra. Mas o plano falhou. Doentes e enfraquecidos, os humanos sobreviveram.
Assim, ele tentou a fome. Sem colheitas, ponderou ele, como os humanos poderiam se alimentar? Mas o plano falhou. Os humanos sobreviveram.
Depois, ele enviou a seca. Sem água, os humanos, com certeza, morreriam. Mas esse plano também falhou. Mais uma vez, eles sobreviveram.
Quebrando a cabeça, ele finalmente decidiu enviar o Dilúvio.
Enlil reuniu os deuses no grande salão de audiências e todos fizeram um juramento concordando com o plano. Mas o deus Ea ficou desconfortável. Ele se sentiu mal com o juramento, assim como se sentia mal quando comia carne de porco banhada em ghee. E, apesar de ser um deus, Ea não era imune a problemas gástricos. Assim, após passar várias noites encolhido em posições bastante incômodas, ele decidiu que precisava agir. Apesar de não ser nem de longe poderoso o suficiente para impedir Enlil, ele não era o deus da trapaça à toa.
Se não podia impedir o plano de Enlil, então ele o sabotaria. Ea decidiu alertar os humanos.
Ele saiu escondido do palácio e incumbiu os elementos de levarem sua mensagem. E no vento eu podia escutar, a princípio baixas e depois ficando mais altas a cada rajada, as palavras de Ea enquanto elas atravessavam o céu.
— O dia se transformará em noite e a terra se tornará uma com o mar; construa o barco da vida e fuja quando eu ordenar!
No começo, ignorei aquelas palavras. Eu não as entendia, e elas me assustavam. Mas elas me seguiam como pássaros, bicando minhas orelhas:
— Os céus chorarão e as montanhas estremecerão enquanto a vida da Terra é varrida; encha o barco com criaturas, artesãos e a família que tanto estima! Que nele se ergam seis andares e que de três metros seja sua largura; com um telhado chato o feche e com piche as laterais cubra.
Eu já estava confuso antes, e isso certamente não mudou. Pouco entendia da mensagem, mas que escolha eu tinha? Como minha esposa tão gentilmente salientou, ele era um deus, afinal.
Nos cinco dias que se seguiram, comecei a construir o barco conforme as instruções de Ea. Encontrar madeira, fique sabendo, era uma tarefa complicada, mas ser o príncipe de Shuppurak naquela época tinha as suas vantagens. Convencer as pessoas a se unirem a mim foi mais difícil. Se eu mesmo mal conseguia compreender a mensagem divina, por que com eles seria diferente? Muitos se recusaram. Alguns acharam que eu estava possuído e tentaram me exorcizar. Até meu pai, o rei, não acreditou em mim. No fim, reuni o máximo de vidas que pude e rezei para que fosse o suficiente. Dessa forma, amontoados lá dentro — em meio aos animais que relinchavam e batiam os pés, ao brilho intenso da fornalha e ao calor úmido de centenas de respirações entrelaçadas —, aguardamos o sinal de Ea.
Junto aos primeiros raios da alvorada, uma nuvem escura surgiu no horizonte.
Ela se movia devagar, os extremos se alongando à medida que ela se estendia, agitando-se e erguendo-se em direção ao céu até que ele ficasse completamente envolto em um abraço caloroso. Ela cresceu cada vez mais, até que desabou que nem uma onda violenta em uma tempestade.
Abaixo de nós, o chão começou a estremecer com crescente intensidade, como se a terra tremesse de raiva. De repente, um estrondo penetrante rasgou o ar quando, de dentro da massa escura e inquieta, o deus Adad urrou e rugiu.
Senti um puxão na manga e, ao me virar, vi minha esposa com os olhos arregalados e a boca se movendo sem emitir sons enquanto, atrás dela, o barco balançava e sacudia.
— O quê? — gritei. Tentei tirar as mãos dos ouvidos, mas fui surpreendido por um barulho alto quando o vento cortou o ar.
— O mar — gritou minha esposa, as palavras sendo engolidas pelos gritos, berros, pisadas e soluços de nossos companheiros —, olhe para o mar...!
Fui até à lateral com pressa e olhei pela portinhola. A água passava a toda velocidade, avançando e acelerando, enquanto, a cada respiração, as ondas quebravam cada vez mais alto. Eu já podia sentir o barco se queixando quando começou a ser chacoalhado, a água empurrando as laterais de madeira enquanto a correnteza ameaçava arrastar a embarcação. À distância, eu podia ver os telhados da cidade desaparecerem rapidamente, as ondas colidiam com construções e campos como um boi fugindo do curral, a terra devastada e dilacerada como solo arado. As barragens transbordaram e os ancoradouros foram arrancados e lançados para o dilúvio como se fossem uma simples folha. Lá em cima, avistei um lampejo nas nuvens agitadas, um clarão como o brilho de uma pulseira de ouro, e então ouvi um forte estrondo quando outro canal se abriu e sibilou.
— São os deuses! — gritei. — Eles estão inundando a terra, estão ajudando Enlil... — parei de falar quando o barco de repente sacudiu e balançou violentamente e, com um guincho desagradável, foi lançado para o mar recém-formado. Pela portinhola, acima dos espirros enraivecidos da maré que subia, assisti enquanto, no submundo, os Annunaki erguiam suas tochas e incendiavam a terra.
Lá em cima, os deuses observavam em choque o que tinham feito. Eles testemunharam cadáveres enchendo o oceano como se fossem peixes, pele sendo arrancada de ossos e transformada em argila, a escuridão rasgando a terra com garras afiadas e dedos manchados, e se encolheram e choraram como criancinhas com medo da tempestade.
*****
Utnapishtim parou. Gilgamesh não conseguia se mexer, ele não sentia os próprios pés e suas pernas estavam rígidas e instáveis, mas seus olhos continuavam grudados no rosto de Utnapishtim, que fechou os olhos e, com um movimento brusco da cabeça, continuou cuspindo as palavras.
— A tempestade finalmente terminou e, depois de muitos dias, nós desembarcamos. Os deuses estavam chocados, até Enlil. Como agradecimento por eu ter salvado a humanidade, eles deram vida eterna a mim e a minha esposa, depois nos mandaram para este lugar miserável. E foi assim, Gilgamesh, que me tornei imortal. Permanecerei aqui pela eternidade, nesta terra distante onde não envelhecerei nem morrerei, sem nada além de minha esposa como companhia. Essa é a minha dádiva e minha maldição. Busque a imortalidade se assim quiser, Grande Rei. Mas pode não gostar do que vai encontrar.
Gilgamesh ficou em silêncio. Ele não disse nada por um tempo. Então, depois de colocar gentilmente a espada no chão, ele colocou a cabeça entre as mãos e chorou.
As chamas ficavam cada vez mais fracas, queimando vermelhas na escuridão enquanto os dois homens se encolhiam justo às brasas moribundas e choravam.
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