Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
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"A Tecelã" inspira-se na história de Aracne, a primeira aranha de acordo com a mitologia romana.
Aracne era jovem quando se sentava ao colo da mãe a vê-la tecer. Ela fiava a lã, torcendo cada ponta desfiada na tapeçaria. As cores dançavam em conjunto, enrolando-se umas nas outas como serpentes, enquanto o azul profundo se aninhava em tons dourados. Era uma tarefa difícil com uma criança a puxar-lhe o braço, pedindo que a entretivesse de alguma forma. Por isso, a mãe de Aracne disse-lhe que, se ela ficasse muito quietinha, lhe contaria uma história.
Os contos que ela tecia com as suas palavras eram muito mais vibrantes para os ouvidos inquietos de uma criança. Ela escutava enquanto a mãe lhe falava das lutas dos deuses, do nascimento de Afrodite e da morte de Cronos. Falava dos voos infelizes de Ícaro e Faetonte, com as mãos a tentarem alcançar o sol antes de caírem, com a luz a escorrer pelos seus dedos condenados. E cada história trazia um aviso. Aracne nunca tinha a certeza se era suposto respeitar os deuses ou evitá-los. Parecia que tudo o que eles tocavam ardia.
À medida que os verões se prolongavam, Aracne crescia e o seu interesse pelas histórias desvanecia-se. Fora avisada vezes suficientes para não perseguir o heroísmo de figuras como Héracles — nunca conseguiria atingir tais patamares. O sucesso aos olhos dos deuses apenas lhe traria perigo. Por isso, descartou os seus sonhos de infância e aprendeu a tecer como a mãe.
Talvez, se ela fosse desajeitada, nada disto tivesse importado. Talvez as Parcas tivessem sorrido para ela se ela tivesse tido dificuldades. Mas Aracne era talentosa, Aracne era determinada, e o seu talento brilhava intensamente demais para ser ignorado. As pessoas começaram a pedir-lhe que tecesse para elas, chegando mesmo a pagar-lhe. E ela precisava do dinheiro. A sua mãe morrera no ano anterior, deixando para trás uma casa fria e uma filha sem outra escolha senão tecer para si mesma alguma estabilidade.
Aracne tornara-se alguém e, enquanto se sentava ao tear dia e noite, gostava de pensar que a sua mãe estaria orgulhosa. Era o que dizia a si mesma quando dava descanso às mãos doridas ou quando a multidão lhe implorava que trabalhasse mais depressa. Despedia-os com pedaços da sua alma e pedia-lhes que lhe trouxessem mais trabalho. Mesmo as riquezas que ganhava não eram suficientes. A enorme quantidade de lã que tinha de comprar para cada peça era quase excessiva. Mas ela não se importava. As pessoas gostavam do seu trabalho, elogiavam-na, aclamavam-na pelo seu talento.
Não se apercebeu do precipício onde se encontrava até a multidão a cercar, elevando o seu nome mais do que devia. Tão alto como Ícaro antes de cair.
Quando começaram a compará-la a Atena, Aracne soube que estava perdida.
Ela não seria a primeira a morrer pela arrogância de um deus. Trabalhou e trabalhou, e esperou que o seu castigo chovesse dos céus.
Não esperava que ele surgisse sob a forma da própria deusa. Uma velha, de mãos calejadas e com cicatrizes, e olhos tão cinzentos como um mar tumultuoso.
— Vieste avisar-me, então? — perguntou Aracne, com a voz tão firme quanto lhe foi possível.
— Sabes quem sou? — perguntou a mulher, com o rosto a contorcer-se ligeiramente, como se fizesse um esforço para manter a sua forma.
— Imaginei que chegarias mais cedo ou mais tarde — confessou Aracne. — Suponho que seja melhor entrares.
A de Olhos Cinzentos permaneceu onde estava, mas as suas feições começaram a mudar.
— Acreditas nisso? No que dizem de ti?
— Queres dizer que sou a melhor tecelã — afirmou Aracne. Ela assentiu levemente. — Não te vou mentir, Atena. Seria uma tola se o fizesse, porque tu saberias, e eu sei o que poderias fazer-me por isso. Mas temo que faças ainda pior se te disser a verdade.
— Acreditas nisso, então.
Aracne ergueu o queixo, retesando-o. — Sim.
— Então talvez devêssemos pôr isso à prova. Desafio-te para um concurso. Tu contra mim. Que dizes?
Quem era Aracne para dizer que não a uma deusa?
Assim que conjurou um tear para si, Atena teceu rapidamente, com os dedos a deslizarem pela lã enquanto a entrelaçava para contar a sua história. Até o seu tecer era um aviso. Ela retratou contos que Aracne reconhecia — histórias de mortais arrogantes que mantiveram a cabeça erguida demais. Histórias dos castigos que os deuses aplicavam. Vagamente, Aracne perguntou-se se o seu nome se juntaria em breve àquela lista. Se ela passaria a pairar entre as estrelas como um conto de advertência.
A tapeçaria era indiscutivelmente bela. Isso enfureceu Aracne. Aquelas pessoas já tinham sido castigadas o suficiente. Tinham sido castigadas ainda mais. Talvez os deuses tivessem sentido necessidade de demonstrar o seu poder, talvez se tivessem sentido injustiçados. Mas algo naquela forma jubilosa de retratar a queda de alguém parecia errado. Enquanto o fogo lhe subia ao peito, Aracne começou a tecer.
Ela também teceu uma mensagem. Uma mensagem aos deuses. Pintou as suas transgressões com a lã, mostrando cruamente as histórias que outrora lhe tinham contado como aviso. Atos feios, horríveis, dançavam pela tapeçaria. Sabia que se estava a condenar a si mesma, mas, antes do seu destino, teria julgado os deuses. Por um segundo, pareceu-lhe que valia a pena.
Atena sabia que aquilo não podia ficar impune. Um desrespeito tão flagrante tinha de ser contestado. Já não queria saber do concurso ao ver a que estado a sua família fora reduzida. Devia matar a rapariga ali mesmo. Mas viu também que o que ela tecia era a verdade. E viu o sorriso no seu rosto enquanto ela labutava no tear.
Assim, Atena proferiu a sentença, da forma mais adequada que conseguiu imaginar no momento. Transformou Aracne numa aranha, um aracnídeo que nunca pararia de tecer, embora com a seda das teias. Uma rapariga cujo nome se juntou aos daqueles de quem costumava ouvir falar, enquanto escutava mitos ao colo da mãe.
Uma rapariga que enfrentou um deus.
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