Ink of Ages Fiction Prize
Historical & Mythological Short Fiction
World History Encyclopedia's international historical and mythological short story contest
Historical & Mythological Short Fiction
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Prisha mora no Reino Unido. Ela é uma leitora assídua, aspirante a poetisa e aficionada por história. Seus livros favoritos são releituras de contos populares e mitos.
“Donzelas, Homens e Mares Revoltos” foi inspirado pelas selkies/noivas-focas do folclore celta e nórdico.
Nasci nos mares cheios de espuma da Irlanda, em uma época da qual não saberá muito. Uma época de fazendeiros, guerreiros, poetas e homens. Uma época em que os mitos eram verdadeiros e verdadeiramente conhecidos, quando não eram histórias estranhas sussurradas à luz de chamas crepitantes no calar da noite.
Ainda assim, talvez a minha história seja assustadoramente familiar. Afinal, há alguns traços humanos que perpetuam até demais pelos milênios.
Sou uma selkie. De dia, somos focas. De noite, meu povo despe as peles de foca na escuridão e se torna humano. Nós dançamos em cavernas próximas ao revolto mar escuro e apreciamos tudo que há de belo. Nossos corações se enchem de amor pelos outros, pela beleza, pela diversão sob o luar.
Na noite em que isso foi tomado de mim, o mar estava agitado. Era como se ele soubesse da minha tristeza iminente e lamentasse meu futuro. Ingênua como era, não me importei. Eu era vaidosa, jovem e animada, ansiava pela emoção de um corpo humano e pela euforia da noite. Eu dançava com o cabelo solto e bagunçado, meu vestido deslizava pelos meus ombros. Sentia minhas mãos entrelaçadas com as do meu amor de uma forma tão bela quanto eu esperava que fosse através da Pedra dos Amantes.
***
Estava quase amanhecendo quando o encontramos. Ele era a imagem de um homem que nunca ouviu um “não”. Ele me assustava.
Quando nós o vimos, reagimos rapidamente. Cada selkie correu para chegar até à sua pele de foca e pulou no mar, desesperadas pela segurança. Bom, exceto eu. Em minha ingênua animação, deixei a minha pele de foca muito longe. Senti o meu amor me chamando, mas era tarde demais. O humano agarrou a minha pele com as mãos sujas e sorriu como um tubarão que encontrou sua presa.
Ele colocou a pele, minha pele, dentro do saco pendurado na cintura e caminhou em minha direção. Com meu amor assistindo, impotente, ele me capturou em seus braços e me tomou para si, me acorrentou a ele com crueldade nos olhos. Ele não deu ouvidos às minhas recusas.
Mais tarde, nos casamos. Ele anunciou seu poder sobre minha vida e morte. Depois, ele me arrastou para minha nova casa, declarando que estávamos apaixonados.
Não, eu não me apaixonei por aquele fazendeiro. Não, eu não queria os toques dele, o meu destino. Pergunte àquele fazendeiro e seus semelhantes, e eles dirão que estou mentindo. Ele perguntará: “O que ela estava fazendo com o cabelo solto e os ombros nus?”
Os filidh acreditavam neles, me pintando como um demônio sedutor. Uma lição de moral.
***
Morei na casa daquele homem por décadas. Ele havia guardado minha pele, afirmando que era meu dote. Ele sorria, dizendo que só a devolveria quando estivesse embaixo da terra, e eu tive a sensação de que aquilo era uma promessa de que eu estaria lá muito antes dele.
As pessoas tinham uma vida tão diferente além da orla. Como todas as criaturas mágicas, selkies eram seres longevos, então mantínhamos nossos filhos por perto por bastante tempo. Na vila, meus meninos juraram lealdade aos mais velhos e minhas meninas casaram aos 14 anos. Algumas das minhas crianças foram entregues a aristocratas quando eram bebezinhas, e outras foram entregues a mim, roubadas de tribos conquistadas. Por mais que eu odiasse o pai das minhas crianças e a crueldade que trouxe meus filhos adotivos até mim, eu amava aqueles pequeninos com todo o coração. Meu coração se partia sempre que uma delas partia muito cedo, mas se alegrava sempre que uma nova chegava. Foi difícil me adaptar, mas meu amor era o meu conforto, e minhas crianças, meu lar.
Lar. Meus filhos só podiam ser fragmentos dessa palavra, dessa lembrança, desse sentimento, não importava o quanto brilhassem. Muitas vezes, eu fugia para a praia e observava o mar revolto, sentia sua raiva pela dolorosa ausência de sua filha, ouvia seus eternos gritos de pesar. Eu andava pela margem irregular onde a água salgada encontrava a areia, ansiando pelas profundezas que me eram tão queridas. Por que, eu pensava, eu amava tanto ser humana naquelas noites distantes?
***
A última das minhas crianças estava prestes a atingir a maioridade quando tomei uma difícil decisão. Selkies eram um povo gentil. Não éramos violentos. Apesar disso, uma mulher tão longe de casa lentamente vai perdendo os traços de sua criação. Da última vez que pisei na areia da praia, com o coração exausto e as lembranças da minha juventude escapando das minhas mãos, finalmente me senti em paz com a minha consciência. Lamentei ter esperado por tanto tempo. Também lamentei pelas crianças, que foram o motivo da minha espera.
Os filidh dirão que eu encontrei o esconderijo da minha pele e a roubei. Que eu deixei uma carta de despedida para dizer a ele para cuidar das crianças e que eu sentia muito. Bobagem! Nós dois éramos analfabetos!
E eu o matei.
A guerreira da vila me deu uma faca e me ensinou a usá-la. Ela ficou encantada com a minha personalidade e, para o meu alívio, não questionou minha determinação. Ela me deu a lâmina reluzente e desejou que meus esforços dessem frutos. Assim, com a arma apertada com firmeza em mãos enfurecidas, tomei a vida dele a sangue frio. Encarei seus olhos assustados e desfrutei da inversão dos papéis. Saboreei a forma como nossa história terminou do mesmo jeito que começou, com um tomando do outro.
Ninguém suspeitou de mim, a esposa dedicada. Eles empurraram meu “dote” para os meus braços, fazendo cara feia enquanto anunciavam minha herança e me davam os pêsames. Abracei minhas crianças, que choravam, e sussurrei meu amor a elas. Chorei também, mas não por ele.
Naquele fim de tarde, uma foca mergulhou no mar irlandês. E, naquela noite, em costas distantes, uma mulher selkie dançou com o cabelo solto e bagunçado, o vestido deslizando pelos ombros, uma lâmina presa à coxa.
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